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Case #29 · Andrew Florance · CoStar Group · O DADO COMO ATIVO IMOBILIÁRIO

CoStar — Quem Fotografou Todos os Prédios Ficou com o Mercado

Washington, D.C. / Arlington, EUA · 1987–hoje · receita 2025: US$ 3,25 bi · 39 anos de coleta contínua

Em 1987, um estudante de Princeton percebeu que o mercado imobiliário comercial dos EUA — trilhões em ativos — não tinha um único banco de dados confiável. Enquanto todos negociavam prédios, ele começou a fotografá-los e catalogá-los um a um. Quase 40 anos depois, o ativo mais defensável do setor não é nenhum prédio: é o registro. Dado proprietário coletado sistematicamente compõe como juros — cada transação, cada listing, cada recusa registrada aumenta a vantagem, e o custo de replicar 39 anos de coleta é proibitivo. Ninguém acorda amanhã com 1.200 pesquisadores.
Sede do CoStar Group em Arlington, Virginia — torre de vidro ao entardecer
Sede do CoStar Group — Arlington, Virginia Gian Lorenzo Ferretti · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0 · clique para ampliar

A Empresa que Fotografa o Mercado

O CoStar é um case de dado, não de tijolo — o "objeto" aqui é um banco de dados de 39 anos, que não se fotografa. O visual livre disponível são as sedes da empresa e a cidade onde a coleta começou. A ironia é deliberada: a empresa que tira ~1 milhão de fotos de prédios por ano protege as próprias imagens com watermark e processos — por isso quase nada do acervo dela circula em licença livre. O acervo é o produto.

Clique para ampliar. Fotos sob licença livre (Wikimedia Commons — CC BY / CC BY-SA / Domínio Público).

A Empresa em Números Verificados

Âncora da Távola: Banca da IA (Ng + Suleyman) — "dado proprietário coletado sistematicamente é o único moat que compõe sozinho"

CoStar Group hoje (NASDAQ: CSGP)

Fundação1987 — Realty Information Group, por Andrew Florance
IPO1998 · Nasdaq · captou US$ 22,5 milhões
Receita 2024US$ 2,74 bilhões (+11% a.a.)
Receita 2025US$ 3,25 bilhões (+19% a.a.)
Lucro líquido 2025US$ 7 milhões — quase zero, comprimido pela aposta residencial
Market cap (jul/2026)~US$ 12 bi — após pico de ~US$ 35,7 bi no fim de 2023
Funcionários~8.400 (2026)
Marcas principaisCoStar · LoopNet · Apartments.com · Homes.com · STR · Matterport

A máquina de coleta (o produto de verdade)

Pesquisadores1.200 na operação de pesquisa (2016)The Real Deal — maior organização de pesquisa do setor
Fotos por ano~1 milhão de fotografias de imóveisThe Real Deal, 2016
Base de imóveis4,2 milhões de imóveis comerciais catalogados (2016)
Investimento em pesquisaUS$ 1 bilhão acumulado até 2016
Hub de pesquisaRichmond, Virginia — desde 2016
Ferramentas de campoFotógrafos, câmeras laser, avião próprio e frota de drones certificados pela FAA

Aquisições — comprando os canais, nunca vendendo o dado

LoopNet (2012)US$ 860 milhões — o maior marketplace de listing comercial
Apartments.com (2014)US$ 585 milhões + Apartment Finder (2015) US$ 170 mi
STR (2019)US$ 450 milhões — benchmarking global de hotéis
Ten-X (2020)US$ 190 milhões — leilões online de imóveis comerciais
Homesnap (2020) · Homes.com (2021)US$ 250 mi + US$ 156 mi — a porta de entrada no residencial
OnTheMarket (2023)~£99 milhões — portal residencial do Reino Unido
Matterport (2025)~US$ 1,6 bilhão — digital twins 3D (concluída em fev/2025)
Domain, Austrália (2025)enterprise value A$ 3,0 bilhões (concluída em ago/2025)

Linha do Tempo — 1987 a 2026

1987

Andrew Florance, ainda estudante de economia em Princeton, funda a Realty Information Group em Washington, D.C. O insight: mercados financeiros tinham dado em tempo real; o imobiliário comercial não tinha nada. Começa a digitalizar, fotografar e catalogar prédios de escritórios um a um — distribuindo o banco de dados em disquete.

1998

IPO na Nasdaq como CoStar Group — capta US$ 22,5 milhões. A ação sai a ~US$ 9. O modelo: assinatura recorrente de acesso ao banco de dados, nunca venda do dado em si.

2004

Perde o caso CoStar v. LoopNet no 4º Circuito: LoopNet, como provedor passivo, não é diretamente responsável por fotos do CoStar postadas por usuários. A derrota vira doutrina de guerra: dali em diante, o CoStar processa quem usa — não a plataforma. Desde 2004, são pelo menos 31 processos federais contra usuários e concorrentes (levantamento The Real Deal, 2016).

2012

Compra o LoopNet por US$ 860 milhões — o concorrente que não conseguiu derrubar no tribunal, compra no M&A. O maior marketplace vira vitrine; o banco de dados CoStar continua sendo o cofre.

2014–2016

Apartments.com (US$ 585 mi) e Apartment Finder (US$ 170 mi) levam o modelo para multifamily. Em 2016, centraliza a operação de pesquisa em Richmond, Virginia. Receita 2015: US$ 712 milhões; valor de mercado passa de US$ 7 bilhões.

2016–2019

Processa a Xceligent, sua única concorrente direta em dados comerciais, por violação de copyright em escala (agentes offshore copiando a base). A Xceligent quebra em dezembro de 2017; em 2019 o CoStar obtém julgamento de US$ 500 milhões — recebe US$ 10,75 mi dos seguradores, o maior acordo de imagem com copyright já registrado. Em outubro de 2019, compra a STR por US$ 450 milhões.

2020–2023

Ten-X, Homesnap, Homes.com e OnTheMarket entram no grupo. Processa a CREXi por copiar ~50 mil imagens. Pico de valor: ~US$ 35,7 bilhões no fim de 2023.

2024

Lança a maior campanha de marketing da história do setor: US$ 1 bilhão no Homes.com, com 4 anúncios no Super Bowl, para atacar o Zillow no residencial. A Move Inc. (Realtor.com/News Corp) processa por segredo industrial — e desiste do caso sem receber nada após ter a liminar negada.

2025

Conclui Matterport (~US$ 1,6 bi, fev) e Domain Austrália (A$ 3,0 bi, ago). Em junho, o 9º Circuito revive a contra-ação antitruste da CREXi: a tese de que o CoStar monopoliza o mercado de dados imobiliários comerciais é "plausível" e vai a julgamento. Em julho, processa o Zillow por 46 mil imagens com watermark. Receita: US$ 3,25 bi; lucro líquido: só US$ 7 milhões.

2026

O mercado cobra a conta da aposta residencial: a ação cai ~63% em 12 meses e o market cap recua para ~US$ 12 bilhões (julho). O moat de dados comerciais segue intacto — a dúvida é se ele financia a guerra contra o Zillow sem sangrar o acionista.

Mecanismo — Por que Dado Compõe como Juros

O ponto de partida: um mercado de trilhões sem dado

"I could see what Treasury was doing this morning versus this afternoon… what a stock index was doing right now versus six seconds ago. There was just nothing for real estate."

→ "Eu conseguia ver o que o Tesouro estava fazendo de manhã versus à tarde… o que um índice de ações estava fazendo agora versus seis segundos atrás. Para o imobiliário, simplesmente não existia nada."

— Andy Florance, sobre o insight de 1986–87 em Princeton · Washingtonian, 2013

A asimetria fundadora: em 1987, o mercado imobiliário comercial americano operava por telefonemas, fichários e boatos de corretor. Cada player enxergava só o próprio pedaço. Florance percebeu que quem construísse a visão do todo — endereço por endereço, andar por andar, contrato por contrato — não teria um produto: teria o mapa do mercado. E mapa de mercado se aluga para sempre, nunca se vende.

O método era braçal de propósito: fotografar cada prédio, medir cada laje, ligar para cada locatário, registrar cada transação. O que parecia ineficiência (por que não esperar o dado público?) era a estratégia: o dado que não existe em lugar nenhum não pode ser comprado por concorrente nenhum. Só pode ser recoletado — e recoletar custa os mesmos 39 anos.

As quatro engrenagens do moat

1. Compounding — o dado de hoje vale mais por causa do dado de ontem: um aluguel registrado em 2026 vale pouco sozinho. Contra a série do mesmo prédio desde 1990, vira curva de mercado: tendência, sazonalidade, ciclo. Cada registro novo valoriza todos os anteriores — é a definição de juros compostos aplicada a informação. Concorrente que começa hoje não está "atrás": está estruturalmente impossibilitado de ter a série histórica.

2. O registro do que NÃO aconteceu: a base do CoStar guarda também o espaço que ficou vago, o preço pedido que não fechou, o listing retirado. O mercado inteiro só publica sucesso; o CoStar registra o fracasso — e vacância, desconto e tempo-em-oferta são exatamente os dados que precificam risco. Quem só tem o dado das transações fechadas tem metade do mercado.

3. Assinatura + watermark + tribunal = enforcement: o modelo é acesso por assinatura (nunca venda), cada foto carrega watermark rastreável, e o jurídico processa sistematicamente quem copia — 31 processos federais desde 2004, Xceligent levada à falência, CREXi e Zillow no tribunal agora. O moat não se defende sozinho: o CoStar transformou copyright de foto em arma de guerra competitiva.

4. Dado no cofre, marketplace na vitrine: LoopNet, Apartments.com e Homes.com são as vitrines que geram tráfego, receita de anúncio — e mais dado comportamental que realimenta o cofre. A arquitetura é circular: o dado torna o marketplace melhor, o marketplace coleta mais dado. Concorrentes têm um ou outro; o CoStar fecha o ciclo.

A barreira de entrada, na voz de um concorrente

"Nobody can wake up tomorrow and say, 'I'll have 1,200 researchers' — it is a huge barrier to entry."

→ "Ninguém pode acordar amanhã e dizer: 'eu terei 1.200 pesquisadores' — é uma barreira de entrada gigantesca."

— Richard Sarkis, cofundador da Reonomy (concorrente em dados imobiliários) · The Real Deal, 2016

Note o que Sarkis está dizendo: a barreira não é o software, não é o capital, não é a marca. É a operação humana de coleta acumulada no tempo. Capital compra servidores em semanas e engenheiros em meses — mas não compra 39 anos de telefonemas, fotos e registros. O tempo é o único insumo que não tem mercado spot. Por isso dado proprietário longitudinal é o moat preferido da Banca da IA da Távola: na era em que modelos de IA são commodity, o dado exclusivo que os alimenta é o que resta de defensável.

O lado sombrio: quando o moat vira alegação de monopólio

A litigância como estratégia documentada: o perfil da The Real Deal (2016) — apelidado internamente de "cruzada" do CoStar — contabilizou ao menos 31 processos federais desde 2004 contra usuários e concorrentes. A Xceligent, única rival direta em dados comerciais, quebrou em 2017 sob o peso do litígio; o julgamento de US$ 500 milhões veio depois da falência. Funciona — e cria inimigos.

A contra-ação da CREXi (2025): ao processar a CREXi por copiar imagens, o CoStar recebeu de volta uma contra-ação antitruste: a alegação de que monopoliza o mercado de informação imobiliária comercial e usa copyright para sufocar concorrência. Em junho de 2025, o 9º Circuito considerou a tese "plausível" e mandou o caso a julgamento — o CoStar recorreu à Suprema Corte. Ainda é alegação, não condenação. Mas é o risco clássico do moat perfeito: a mesma vantagem que o investidor celebra, o regulador investiga.

O preço da segunda guerra: a tentativa de repetir o playbook no residencial (Homes.com contra o Zillow) consumiu US$ 1 bilhão em marketing em 2024 e comprimiu o lucro líquido de 2025 para US$ 7 milhões. O mercado respondeu: ação caiu ~63% em 12 meses. Lição dentro da lição: o moat de dados comerciais é real; a marca de consumo residencial é outra guerra, com outras regras — lá o moat do Zillow é audiência, não dado.

Dados que circulam sem fonte primária — não usar "Taxa de renovação de assinaturas de 90%+", "6 milhões de imóveis na base atual" e "monopólio de 90% do mercado de dados comerciais" aparecem em artigos e apresentações sem fonte primária rastreável. Os números verificados desta página são os de 2016 (The Real Deal: 1.200 pesquisadores, 4,2 mi de imóveis, ~1 mi de fotos/ano) e os financeiros de releases oficiais/imprensa especializada. "Monopólio" é alegação em juízo (CREXi), não fato julgado.

Acertos e Erros

A síntese honesta — o que funcionou e o que está custando caro. Detalhes e fontes nas seções acima e na Verificação.

✓ Acertos
  • Coletou antes de existir demanda: começou a catalogar em 1987, uma década antes da internet comercial — quando o dado virou ouro, ele já tinha 10 anos de série que ninguém mais tinha.
  • Nunca vendeu o ativo, só o acesso: assinatura recorrente desde o disquete. O dado nunca sai do cofre — receita composta sobre ativo que compõe.
  • Registrou o fracasso, não só o sucesso: vacância, preço pedido, listing retirado. O dado negativo é o que precifica risco — e é o mais difícil de replicar.
  • Comprou as vitrines, guardou o cofre: LoopNet (US$ 860 mi) e Apartments.com (US$ 585 mi) viraram canais que realimentam a base — ciclo fechado dado→audiência→dado.
  • Defesa jurídica sistemática do ativo: watermark + copyright + 31 processos. Concorrente que copiava (Xceligent) faliu; quem copia hoje (CREXi, Zillow) está no tribunal.
✗ Erros / Custos
  • A aposta residencial queima o caixa do moat: US$ 1 bi de marketing no Homes.com (2024) → lucro líquido 2025 de US$ 7 milhões. Contra o Zillow, o moat relevante é audiência — e essa guerra o dado não vence sozinho.
  • O mercado cortou o valor pela metade e mais: de ~US$ 35,7 bi (fim de 2023) para ~US$ 12 bi (jul/2026), queda de ~63% em 12 meses. Moat intacto não imuniza contra alocação de capital questionada.
  • A litigância virou passivo antitruste: o 9º Circuito reviveu a contra-ação da CREXi (jun/2025) — a tese de monopólio vai a julgamento e a Suprema Corte foi acionada. O enforcement do moat agora corre risco regulatório.
  • Reputação de "cruzada" tem custo: processar os próprios usuários (31 ações desde 2004) protege o dado e corrói a relação com o mercado que o alimenta.
  • Precedente perdido em 2004: a derrota no caso LoopNet consolidou a doutrina do provedor passivo — o CoStar fortaleceu, contra si, a defesa de todas as plataformas que hospedam conteúdo copiado.

Aplicação — O CoStar das Permutas

Pattern Extraído
Dado Proprietário que Compõe como Juros

A sacada da Távola (Ng + Suleyman): cada terreno que passa pela sua mesa, mesmo o recusado, deve virar registro estruturado — 40+ campos. Endereço, matrícula, área, zoneamento, potencial construtivo, preço pedido, proposta feita, motivo da recusa, quem ofertou, quando. Em anos, o histórico de ofertas e recusas é um ativo que ninguém no Brasil tem — porque ninguém registra o que não fechou. Foi exatamente assim que Florance começou: fotografando prédios que ninguém achava que valiam registro.

Frase causal: Em um mercado opaco onde nenhum participante enxerga o todo e o dado negativo não é registrado por ninguém [C], registrar sistematicamente cada transação, oferta e recusa em formato estruturado e proprietário [M] produz um ativo de informação que compõe como juros, torna-se irreplicável pelo custo-tempo da coleta e acaba precificando o acesso ao próprio mercado [R].

Gêmeo brasileiro: o mercado brasileiro de terrenos e permutas em 2026 é os EUA comerciais de 1987 — sem MLS, sem registro central de ofertas, com o dado de recusa simplesmente inexistente. O gêmeo é a base transacional proprietária de originação de terrenos (o playbook PermutaPro): cada terreno analisado vira registro de 40+ campos, fechado ou não. Gatilhos mensuráveis a monitorar enquanto a base cresce: alvarás de construção aprovados por município (proxy de demanda de incorporador por terreno), volume de distratos (proxy de ciclo), avanço do Registro de Imóveis eletrônico/ONR e do ITBI digitalizado (quando o dado público ficar bom, a janela de coletar o dado privado antes dos outros começa a fechar) e lançamentos vs. absorção por praça (Abrainc-Fipe/CBIC) para calibrar onde a série histórica vale mais.

Critérios — como construir (e avaliar) um moat de dados imobiliário no Brasil

CritérioO que fazer / buscarSinal de alerta
Registrar a recusa, não só o fechamento Todo terreno/imóvel analisado vira registro estruturado com motivo da recusa, preço pedido e proposta feita. O CoStar registra vacância e listing retirado — o dado negativo é o que precifica risco. CRM que só guarda negócio ganho. Histórico de "não" jogado fora é o ativo mais raro sendo deletado diariamente.
Padronização antes de volume 40+ campos fixos, preenchimento obrigatório, taxonomia única (zoneamento, vocação, potencial construtivo). Dado padronizado de 200 terrenos vale mais que anotação solta de 2.000. Cada analista registrando "do seu jeito" — em 3 anos a base não agrega, porque série sem padrão não vira curva.
Coleta sistemática, não oportunista Rotina de atualização com dono, frequência e meta (o CoStar liga, fotografa e atualiza continuamente — avião e drone inclusos). O valor está na série temporal, e série exige disciplina de cadência. Base alimentada "quando sobra tempo". Buraco de 6 meses na série derruba o valor de todos os anos anteriores.
Vender acesso, nunca o dado Relatórios, dossiês e leituras de mercado por assinatura ou por projeto — o banco cru nunca sai de casa. Foi a decisão que fez o CoStar valer bilhões com disquete e depois com API. Exportar a planilha completa para o cliente "só dessa vez". Dado entregue cru é moat doado ao mercado.
Proteção formal do ativo Marca d'água em material visual, contratos de confidencialidade, cláusula de não-raspagem, autoria documentada. O moat do CoStar só existe porque é defendido — watermark virou prova em juízo. Fotos, fichas e análises circulando por WhatsApp sem identificação de origem. O que não é rastreável não é defensável.
Ciclo dado ↔ operação fechado A operação (originação, corretagem, consultoria) alimenta a base e a base melhora a operação — como marketplace e cofre do CoStar. Quem opera coleta de graça o que concorrente pagaria caro. "Projeto de dados" separado da operação, sem fonte própria de registro. Sem operação alimentando, a base envelhece e vira custo.
Não confundir moat de dado com guerra de audiência Dado proprietário vence em decisão B2B (incorporador, fundo, banco). Marca de consumo vence em audiência B2C. O CoStar domina a primeira e sangra US$ 1 bi na segunda. Usar o caixa do negócio de dados para comprar audiência de portal — a lição de 2024–2026 do próprio CoStar.

Onde no Brasil esse mecanismo está aberto agora

O vazio estrutural é nacional: o Brasil não tem MLS, não tem registro central de ofertas e o dado público (cartórios, ITBI, alvarás) é fragmentado por município. Quem opera originação de terrenos, permutas ou landbank em qualquer praça — capitais, cidades médias do interior paulista, Sul, Nordeste em expansão — está sentado num fluxo de dado que ninguém registra. A janela é agora: o Registro de Imóveis eletrônico (ONR/SREI) e a digitalização do ITBI vão melhorar o dado público na próxima década, e o prêmio de quem tem série proprietária anterior só cresce até lá.

Quem já tenta (e onde não chegam): DataZAP (Grupo OLX), Brain Inteligência Estratégica e os índices Abrainc-Fipe/CBIC cobrem listing residencial, pesquisa de lançamento e agregados macro. Nenhum registra o mercado de terrenos: oferta, contraproposta, recusa, condição de permuta. É exatamente o pedaço que o operador captura de graça no dia a dia — e o mais valioso, porque é o dado do que não fechou.

Para quem é a lição: incorporadoras médias (o comitê de terrenos já gera o dado — falta estruturar), consultorias de originação (o dossiê de cada terreno recusado é o produto de amanhã), gestoras de FII e landbank (série proprietária de ofertas = vantagem de underwriting) e qualquer operação de permuta em escala — onde cada mesa de negociação é um sensor de mercado que a concorrência não tem.

O que NÃO copiar: a litigância como primeira arma (nos EUA, copyright de foto tem enforcement barato; no Brasil, o custo reputacional e judicial não compensa para operação média) e a guerra de portal B2C — audiência de consumo é outro jogo, com CAC que só faz sentido para quem já tem bilhões de receita recorrente.

Siglas e Termos-Chave

Data moat
Fosso competitivo baseado em dado proprietário que concorrentes não conseguem comprar nem replicar em prazo viável. Diferente de vantagem de software (copiável) ou de capital (alugável): o insumo do data moat é tempo de coleta acumulado.
Compounding de dado
Propriedade pela qual cada registro novo valoriza todos os anteriores — um aluguel de 2026 vira tendência quando existe a série desde 1990. Análogo informacional dos juros compostos: o valor cresce em função do estoque, não só do fluxo.
Dado negativo
Registro do que não aconteceu: vacância, preço pedido sem fechamento, listing retirado, oferta recusada. É o dado que precifica risco — e o mais raro, porque o mercado só publica sucesso. Base do "registrar a recusa" no playbook de permutas.
CRE
Commercial Real Estate — imóveis comerciais (escritórios, varejo, industrial, multifamily, hotéis). O território original do CoStar, onde o dado era mais opaco e o cliente (broker, fundo, banco) paga mais caro por informação.
MLS
Multiple Listing Service — sistema cooperativo americano de compartilhamento de listings residenciais entre corretores. O Brasil não tem equivalente nacional: essa ausência é exatamente a oportunidade do case aplicado ao mercado brasileiro.
Comps
Comparáveis — transações e ofertas semelhantes usadas para precificar um ativo. A qualidade dos comps depende da base: quem tem série proprietária de 39 anos produz comps que o concorrente não consegue montar.
Watermark
Marca d'água digital em fotos e documentos que identifica a origem. No CoStar, é ferramenta de enforcement: imagens copiadas com watermark viraram prova central nos casos Xceligent, CREXi e Zillow.
Sherman Act
Lei antitruste americana de 1890. É a base da contra-ação da CREXi: a alegação de que o CoStar monopoliza o mercado de dados imobiliários comerciais e usa copyright para excluir concorrentes — tese que o 9º Circuito mandou a julgamento em 2025.
Provedor passivo (caso LoopNet)
Doutrina consolidada em CoStar v. LoopNet (4º Circuito, 2004): plataforma que apenas hospeda conteúdo enviado por usuários, sem ato volitivo de cópia, não responde por violação direta de copyright. Derrota do CoStar que redirecionou sua estratégia para processar quem copia.
Digital twin
Réplica digital tridimensional de um imóvel. A Matterport (comprada por ~US$ 1,6 bi em 2025) domina o formato — para o CoStar, é a próxima camada de dado proprietário: a geometria interna dos imóveis.
Registro estruturado 40+ campos
Padrão mínimo do playbook de permutas: cada terreno analisado vira ficha com campos fixos (matrícula, área, zoneamento, potencial construtivo, preço pedido, proposta, motivo de recusa, datas, partes). Estrutura é o que transforma anotação em ativo.
ONR / SREI
Operador Nacional do Registro Eletrônico de Imóveis e o Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis — a digitalização dos cartórios brasileiros. Quando maduros, melhoram o dado público: o relógio que define a janela para coletar dado proprietário antes dos outros.
VGV
Valor Geral de Vendas — receita potencial total de um empreendimento. No contexto do case: a base de terrenos registrados permite estimar VGV viável por praça antes do concorrente, transformando dado em vantagem de originação.
CAGR
Compound Annual Growth Rate — taxa composta de crescimento anual. A métrica que resume o case: receita do CoStar cresceu de US$ 712 mi (2015) a US$ 3,25 bi (2025) — composição de ~16% a.a. por uma década, sobre um ativo que também compõe.

Onde Estudar — Links Verificados

História, Perfil e Mecânica da Coleta

Aquisições e a Aposta Residencial

Litígios e Controvérsias

Status dos Principais Claims

AfirmaçãoStatusObservação
Fundada em 1987 por Andrew Florance (Realty Information Group), ainda estudante de Princeton✓ VERIFICADOWikipedia + Encyclopedia.com + The Real Deal — concepção em 1986, fundação em 1987
IPO em 1998 na Nasdaq, captando US$ 22,5 milhões✓ VERIFICADOWikipedia CoStar Group; ação a ~US$ 9 no IPO (The Real Deal)
1.200 pesquisadores · ~1 mi de fotos/ano · 4,2 mi de imóveis · US$ 1 bi investido em pesquisa✓ VERIFICADOThe Real Deal, "CoStar's Crusade" (2016) — números daquele ano, não atuais
Operação de pesquisa em Richmond (VA) com fotógrafos, drones certificados FAA e avião próprio✓ VERIFICADO10-K CoStar + página institucional Homes.com (equipe 1.000+ em Richmond desde 2016)
Receita 2024: US$ 2,74 bi (+11%) · Receita 2025: US$ 3,25 bi (+19%)✓ VERIFICADOReleases de resultados CoStar (FY2024 e FY2025) + StockAnalysis
Lucro líquido 2025 de apenas US$ 7 milhões✓ VERIFICADORelease FY2025 do CoStar Group — compressão pela ofensiva residencial
Market cap: pico ~US$ 35,7 bi (fim de 2023) → ~US$ 12 bi (jul/2026), queda de ~63% em 12 meses✓ VERIFICADOCompaniesMarketCap — 2023: US$ 35,68 bi; jul/2026: US$ 12,25 bi
Brief da Távola: "market cap de dezenas de bilhões"⚠ CORRIGIDOEra verdade até 2025 (~US$ 28–36 bi); em jul/2026 é ~US$ 12 bi. O case usa o número atual.
LoopNet US$ 860 mi (2012) · Apartments.com US$ 585 mi (2014) · Apartment Finder US$ 170 mi (2015)✓ VERIFICADOWikipedia + The Real Deal — valores convergentes em múltiplas fontes
STR por US$ 450 mi (2019) · Ten-X US$ 190 mi (2020) · Homesnap US$ 250 mi (2020) · Homes.com US$ 156 mi (2021)✓ VERIFICADOAnúncio oficial STR (out/2019) + Wikipedia CoStar Group
OnTheMarket ~£99 mi (dez/2023) · Matterport ~US$ 1,6 bi (fev/2025) · Domain A$ 3,0 bi (ago/2025)✓ VERIFICADOHousingWire + release Matterport + Proptech Connect/Corrs
CoStar v. LoopNet (2004): CoStar perdeu — provedor passivo não responde por cópia direta✓ VERIFICADO373 F.3d 544 (4º Cir. 2004) — Wikipedia do caso + registros do 4º Circuito
Ao menos 31 processos federais contra usuários e concorrentes desde 2004✓ VERIFICADOLevantamento The Real Deal (2016) — número era o piso naquele ano
Xceligent: processada em dez/2016, falência em dez/2017, julgamento de US$ 500 mi (2019), acordo de US$ 10,75 mi✓ VERIFICADOBisnow — seguradores pagaram; maior acordo de copyright de imagem registrado
9º Circuito reviveu a contra-ação antitruste da CREXi (jun/2025); CoStar recorreu à Suprema Corte✓ VERIFICADOBisnow + PYMNTS — alegação "plausível" de monopólio; ainda sem julgamento de mérito
Campanha Homes.com: US$ 1 bi com 4 anúncios no Super Bowl 2024✓ VERIFICADOHousingWire + Inman — inclui conteúdo proprietário de bairros 2023–24
Processo contra o Zillow (jul/2025): 46 mil imagens com watermark✓ VERIFICADORelease CoStar + Real Estate News — Zillow removeu tours Matterport em out/2025
"Monopólio de X% do mercado de dados comerciais"✗ NÃO VERIFICADOPercentuais de share circulam sem fonte primária. "Monopólio" é alegação em juízo (CREXi), não fato julgado. Não usar.
"Taxa de renovação de assinaturas de 90%+" e "6 milhões de imóveis na base atual"✗ NÃO VERIFICADORepetidos em artigos sem fonte primária rastreável. Os números de base verificados são os de 2016 (The Real Deal). Não usar.
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